Como surgiu a Jam Session, que tornou-se um sucesso e um programa constante do festival Música em Trancoso?

Tudo começou no primeiro Música em Trancoso, em 2012. Eu estava ensaiando com meus músicos para o concerto Bossa Nova e os solistas europeus foram assistir. Ficaram encantados com a MPB (Música Popular Brasileira), depois ficaram mais encantados ainda com a apresentação, com os improvisos, daí eu comentei com eles que poderíamos juntar todo mundo. Ou seja, fazer uma experiência de música brasileira com improvisações, junto com os músicos estrangeiros da música clássica.

Conversando com Sabine Lovatelli, ela falou em abrir uma noite, no festival, de jam session. O Música em Trancoso promove encontros, trocas de informações entre músicos eruditos e populares e acabamos adotando para este programa o nome Jam Session, embora seja um termo mais relacionado ao jazz.

Desde então, a gente vem fazendo a Jam Session no Música em Trancoso todos os anos porque vem dando muito certo. O resultado é muito bom, interessante e vital e o público sempre gosta muito.

O concerto é inclusive bonito plasticamente porque os músicos clássicos ficam querendo seguir o ritmo com o corpo, só vendo mesmo para entender e sentir o que estou falando.

Neste ano, 2015, teremos mais músicos diferentes da área erudita e a formação no palco será bem maior. O que ocorre é que agora os músicos estrangeiros já conhecem este encontro e manifestam a vontade de participar.

Todos gostam muito, não só os que participam no palco, mas também os que estão presentes no festival, todos querem ver. Culturalmente é mavilhoso porque o público, assim como os artistas, recebem a Jam Session do festival como uma informação cultural muito forte e diferente.

E tudo indica que a Jam Session do festival Música em Trancoso está dando múltiplos frutos.

Sim, há planos de fazer um disco, uma turnê. Para isso, penso em reunir os músicos brasileiros da música popular com três ou quatro “berliners”, como a gente chama os solistas, os músicos eruditos lá de Berlim. Na verdade são da Europa, não só de Berlim.

Podemos dizer que o encontro musical promovido pela  Jam Session do festival Música em Trancoso é um programa único no mundo?

Eu acredito que sim, nunca vi algo igual. Já fiz participações esporádicas, por exemplo, em um disco do violoncelista Yo-Yo Ma, chamado Obrigado Brasil, que tenta fundir música erudita com música brasileira.

Já vimos tenor de ópera italiana fazendo disco de música popular com convidados americanos, essas coisas existem, mas nunca vi algo semelhante ao formato da Jam Session do festival Música em Trancoso. Por isso, eu e os músicos envolvidos estamos decididos a tocar este projeto adiante.

Além das performances dos músicos, as músicas escolhidas influenciam a grande comunicação com a plateia durante as Jam Sessions?

Sim, lembrando que às vezes o que é prezeroso para os músicos no palco ou dentro de um estúdio nem sempre chega ao público da mesma forma. Mas no caso das Jam Sessions do Música em Trancoso as sensações e emoções são iguais, compartilhadas, e isso é muito legal.

O elo de ligação entre os músicos e a plateia costuma ser as obras de compositores brasileiros conhecidos, que compõem os temas dos concertos. Na primeira Jam Session do Música em Trancoso escolhi as músicas de Tom Jobim, no segundo foi Dorival Caymmi, em 2014 foram as músicas de Vinicius de Moraes e agora, em 2015, teremos os repertórios de Noel Rosa e Ary Barroso.

Esses encontros tornam-se surpreendentes. Imagine super solistas de orquestras europeias tocando músicas como Saudades da Bahia de Dorival Caymmi, ou uma valsinha de Vinicius de Moraes ou um samba de Noel Rosa. Fica muito forte, maravilhoso.

Existe um programa prévio, ensaiado antecipadamente, para depois ser levado ao palco, onde acontecem as improvisações?

Não há ensaios. Três ou quatro meses antes do festival eu dou início a uma pré-produção. Uma vez escolhido o compositor homenageado da noite, no caso Noel Rosa e Ary Barroso para a Jam Session do Música em Trancoso 2015, eu seleciono as músicas, faço as partituras e vale observar que não são arranjos, mas somente simples melodias das composições, e mando para os músicos.

Daí eles fazem suas próprias escolhas, dizem o que gostariam de tocar. Mantemos nossas conversas por telefone, e-mail ou skype. Quando chegamos em Trancoso, um dia antes da apresentação nós nos reunimos para trocar impressões, opiniões, dou dicas para eles e no dia seguinte nos encontramos no palco e tudo acontece.

Músicos que participam desde o início das Jam Sessions, como Benoît Fromanger, Rüdiger Liebermann e Walter Küssner, já absorveram como se desenvolvem as improvisações com o repertório brasileiro e já querem tocar arranjos.

Na verdade, esses intercâmbios são uma festa, todos ficam entusiasmados e interessados em tocar juntos, em trocar informações musicais um com o outro. Acaba surgindo uma união, algo que eu nunca tinha visto antes e com que sempre sonhei.

Além da Jam Session, você tem outro programa constante no festival Música em Trancoso, que é a noite da Bossa Nova, com seus próprios músicos.

Sim, um programa em que me apresento com minha banda. Em 2015 seremos um noneto, uma formação maior do que nos anos anteriores e teremos dois convidados especiais, Paulinho da Viola e o músico americano Joe Locke, excelente vibrafonista.

A exemplo da Jam Session, é uma noite de bossa nova entre aspas porque o repertório vai além. É uma noite instrumental, sempre com um cantor convidado. Em edições anteriores já tivemos Leny Andrade, Ivan Lins, Mônica Salmaso.

Também gosto muito da noite da Bossa Nova porque tenho oportunidade de criar músicas novas, fazer novos arranjos e os convidados podem apresentar músicas inéditas de seus repertórios.

Você tem uma relação muito especial com o festival Música em Trancoso, não é?

A minha relação com o festival começou há cerca de oito anos, quando Sabine Lovatelli começou a me falar sobre este projeto. Achei a ideia incrível. Toda vez que nos encontrávamos, no Brasil ou em Nova York, onde moro, Sabine falava sobre a possibilidade de realizar um festival de música e construir um teatro em Trancoso.

Em certa ocasião, conheci François Valentiny, o arquiteto que desenhou o teatro. Eu gosto muito de desenhar, sou um arquiteto frustrado, e daí Valentiny já começou a mandar rascunhos da planta e eu fui me envolvendo, foi crescendo um amor muito grande pelo projeto.

Até que um dia ele nasceu. Quando cheguei em Trancoso e fui conhecer o Teatro, foi uma choradeira. Este festival me emociona muito, estou com 71 anos, não posso me emocionar tanto (risos).

O festival tem um papel cultural amplo?

O festival Música em Trancoso não é importante só por sua qualidade musical, pelos intercâmbios que proporciona, mas também por seus eventos paralelos, como as masterclasses.

Todos os festivais costumam ter masterclasses, mas as de Trancoso acontecem de forma muito acessível e natural. De repente estamos lá ensaiando e aparecem garotos da região interessados em ver e aprender.

Sem dúvida o festival tem um papel socioeducativo importante. Muita gente de outros Estados brasileiros já está indo para Trancoso especialmente para o festival.

Embora seja uma localidade pequena, Trancoso possui uma orquestra de crianças, de 12, 13 anos. E o festival também está abarcando manifestações como esta, devolvendo para a região, de bandeja, um padrão musical e cultural alto e constante.

Geralmente os festivais de música viram feiras de amostras, para apresentar o que o artista está fazendo naquele ano. O festival Música em Trancoso não é isso. Na minha experiência pelo mundo, não vejo nada igual. Até onde alcanço o Música em Trancoso é ímpar, por isso sou tão apaixonado por este festival.

Você mora nos Estados Unidos, se apresenta constantemente com seu grupo de músicos e ao mesmo tempo está muito envolvido com o festival Música em Trancoso. Como estão suas atividades agora?

Moro nos Estados Unidos há mais de 20 anos , em Chatham, uma cidade a 25 minutos de Nova York. Tenho vários projetos instrumentais, recentemente me apresentei com meu quarteto na Itália, em Milão. Fico rodando pelo mundo, Brasil inclusive. Tenho um trio também, a formação musical pequena é minha paixão, foi assim que comecei.

Também adoro trabalhar com orquestras, fazer arranjos para grandes formações. Mas minha paixão é o trio com piano, baixo e bateria, ou o quarteto, que inclui a guitarra. É um tipo de formação que faz bem para meu espírito, os músicos são fantásticos, todos brasileiros.

Eventualmente trabalho com outro quarteto com músicos americanos, mas o forte é com os músicos brasileiros, tocamos com liberdade, prazer, um gosta do outro. Um grupo grande já demanda arranjos, já fica uma coisa unilateral, enquanto no pequeno fica aquela criação coletiva.

Evidente que o piano lidera, eu chego com as músicas e ideias, mas existe uma criação coletiva, em função do que o outro toca, isso é brilhante, inventivo e eu adoro. Sempre estou fazendo isso.

Mas não deixo de fazer produções de discos, arranjos, tem sempre alguém pedindo, gosto muito também. Só que o trabalho com o trio ou quarteto demanda menos tempo do que produzir um album, do que fazer arranjos para shows. Então estou deixando essas atividades de lado para me dedicar mais ao Música em Trancoso, são seis meses dedicados ao festival, o que não me impede de fazer concertos com trio ou quarteto.

Você é um músico consagrado, que já trabalhou com muitos artistas. Mas, o intercâmbio com músicos da área erudita, como está ocorrendo no festival Música em Trancoso, já tinha acontecido de forma tão intensa?

Sou um autodidata, minha formação musical começou dentro de casa, onde a música tradicional brasileira convivia com a música erudita.

Meu pai ouvia música erudita o dia inteiro, ele era professor de música, pianista clássico não profissional. Minha mãe, por outro lado, gostava de música tradicional brasileira, de chorinhos, das composições de Jacob do Bandolim e também de música americana, especialmente jazz.

Eu ficava no meio do muro, ouvindo os dois, gostava dos dois. Mas eu sempre tive paixão pela música erudita enquanto orquestração maravilhosa, quando era menino eu me imaginava como um regente de orquestra. Entrei na vida profissional como músico com essas informações na cabeça.

Embora eu seja autodidata, estou sempre pesquisando música, 24 horas por dia, experimentando, escrevendo, fazendo arranjos. Escrevi para orquestra sinfônica quando fiz a trilha sonora de um filme produzido no Japão, Frontier Dreams, e para tanto tive que me aprofundar na música erudita em termos de som, orquestração.

Em seguida fiz o disco com Yo-Yo Ma, então, sempre que posso, dou uma passeada por esse mundo. Tecnicamente não sei nada, eu sei escrever do meu jeito, consigo escrever qualquer som que eu ouço dentro de minha cabeça e então cada vez que participo de um projeto, de apresentações, eu aprendo com este universo fascinante.

Ao mesmo tempo, percebo que quando proponho uma orquestração diferente para uma orquestra sinfônica, os músicos vibram, gostam de sair do formato estabelecido da música clássica. A partir dessas experiências, passei a prestar muita atenção a essa mistura de popular com erudito e esse intercâmbio se intensifica no festival Música em Trancoso.

Veja os programas das noites da Jam Session e da Bossa Nova.

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