O maestro Roberto Minczuk tinha 18 anos quando começou a chamar atenção como músico. Na época, 1985, ele conquistou o primeiro lugar do I Prêmio Eldorado de Música, que tornou-se uma das premiações mais importantes e prestigiadas do Brasil.

“Foi Sabine Lovatelli quem me entregou o troféu do Prêmio Eldorado”, lembra Minczuk, que foi premiado como trompista, uma modalidade pouco comum, considerando-se a preferência nacional por instrumentos como o piano.

Roberto MinczukHoje reconhecido internacionalmente, Minczuk reveza-se entre o Rio de Janeiro, onde é regente titular da Orquestra Sinfônica Brasileira, uma das mais importantes do país, e o Canadá, onde ocupa cargo similar na Filarmônica de Calgary.

No festival Música em Trancoso de 2015, Minczuk participa como maestro convidado dos concertos que encerram o evento, nos dias 13 e 14 de março, quando regerá a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, com a qual já trabalhou.

Na entrevista a seguir, Minczuk fala sobre o MeT, o programa que vai reger e o potencial musical do Brasil. “Música é como comida, você precisa experimentar, gostar e ter acesso”, diz o maestro.

Qual sua expectativa com o festival Música em Trancoso 2015?

Roberto Minczuk – Estou muito feliz por estar participando pela primeira vez do festival Música em Trancoso, que acontece em um lugar paradisíaco e reúne músicos de altíssima qualidade. Conheci o projeto do festival há mais de quatro anos, quando encontrei Sabine Lovatelli em Trancoso, em um perído de férias, e ela me mostrou o esboço do teatro que seria construído.

Agora, finalmente, terei o prazer de participar deste evento maravilhoso e regendo a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, da qual eu já fui regente titular. No festival, estarei novamente à frente desta orquestra que é muito boa, desta vez como maestro convidado. Estou muito empolgado com a oportunidade deste reencontro e porque estarei neste festival que é um dos melhores acontecimentos do Brasil, na área de música clássica.

Como você resumiria a importância do MeT?

Roberto Minczuk – Acho extraordinária a existência deste festival em Trancoso porque está localizado em um dos lugares mais bonitos do país, onde o Brasil começou a existir, na região de Porto Seguro. É um festival singular, que tem o privilégio de contar com três elementos fantásticos: a beleza da natureza, a beleza da música, que é uma das expressões mais incríveis que o ser humano foi capaz de desenvolver, e ainda o fato de ser um evento do Brasil, que supre lacunas na área cultural.

Você pode comentar o programa que a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto vai apresentar sob sua regência, no encerramento do festival?

Roberto Minczuk – São dois programas muito contrastantes e ecléticos. O primeiro, intitulado Uma Noite na Ópera, que será no dia 13 de março, apresenta árias de óperas famosas, como Luisa Miller, de Verdi, Lucrezia Borgia, de Donizetti, Tancredi e La Cenerentola, de Rossini, Manon Lescaut, de Puccini, entre outras, e com participações de solistas maravilhosos.

É um programa delicioso e festivo, assim como o de sábado, 14 de março, que tem como título Canzone – Chanson – Canção. Este segundo programa mistura obras que vão de trechos de ópera a músicas instrumentais para violino e orquestra, também com presença de excelentes solistas convidados, como os violinistas Rüdiger Liebermann e Lorenz Nasturica Herschowici, o clarinetista Lászlo Kuti, além de cantores como Enrique Folger, Vesselina Kasarova e a brasileira Josy Santos.

Trata-se de um programa ainda mais eclético, que apresenta inclusive canções de Edith Piaf. É um programa leve, que costumamos chamar de “ligeiro”, de altíssima qualidade, com canções e peças instrumentais muito bem escolhidas para o encerramento do festival.

Sobre sua trajetória artística: você começou bem jovem, era um instrumentista brilhante, tocava trompa, um instrumento nem tão popular, tornou-se maestro de projeção internacional, dirige uma grande orquestra no Brasil. Sua carreira pode inspirar jovens músicos brasileiros?

Roberto Minczuk – Acredito que sim. Hoje sou maestro titular da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), sediada no Rio de Janeiro, e também da Orquestra Filarmônica de Calgary, no Canadá. Na infância, fui incumbido de ser maestro por meu pai, que também é regente. Mas, eu sempre julguei muito importante ser um instrumentista realizado, com uma carreira, antes de fazer a transição para a regência.

E a trompa foi meu instrumento principal, me formei na Juilliard School, em Nova York, para onde fui aos 14 anos, e depois busquei formação em regência na Alemanha Oriental. Fui para lá para tocar na Orquestra Gewandhaus de Leipzig e também porque queria ter aulas com Kurt Masur, que era o maestro da orquestra. Masur tornou-se meu mentor, então tive essa benção de poder ter essas oportunidades.

Assim que comecei a desenvolver minha carreira de regente eu voltei para o Brasil, estudei com o maestro Eleazar de Carvalho e me iniciei no cargo de regência na Orquestra Sinfônica da Universidade de Brasília.

Depois fui para a Sinfônica de Ribeirão Preto, em seguida para a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) e simultaneamente prestei concurso e me tornei regente assistente da Orquestra Filarmônica de Nova York e aí abriram-se as portas para a carreira internacional.

A partir de então, eu regi muitas orquestras internacionais importantes, mais de 80. Evidentemente, esta trajetória pode inspirar uma nova geração, que pode ver que é possível um brasileiro estudar, fazer carreira, não só no Brasil mas também no exterior.

Sempre procuro estimular jovens músicos, mostrando que o mais importante é a paixão, a dedicação em primeiro lugar à música e não à carreira.

Carreira é uma consequência da qualidade artística do indivíduo e eu sempre digo que amo reger, fazer música com qualidade e é secundário onde isto se realiza. O objetivo do artista, de fato, é realizar sua arte da melhor forma possível.

Você acredita no potencial musical do Brasil?

Roberto Minczuk – Com absoluta certeza. O Brasil sempre será o país do futuro porque seu potencial é enorme e vai se realizar a longo prazo, vai depender de investimentos na educação, de estímulos. Por isso é tão importante uma iniciativa como esta do festival Musica em Trancoso.

É um festival que integra o Brasil, que coloca o país num cenário internacional, que também estimula os artistas brasileiros e abre espaço em mais um local onde pode-se produzir música com qualidade.

O Brasil tem uma dimensão enorme, é grande também na população e na quantidade de jovens talentosos. Precisaríamos ter uma política nacional voltada para a música, como existe hoje na Venezuela.

A Venezuela é hoje uma referência?

Roberto Minczuk – No campo da música, a Venezuela é um país que está produzindo coisas inacreditáveis na área da música clássica. Mas isto porque possui um projeto de âmbito nacional que tem 40 anos de existência, com investimento contínuo por parte do governo e contando com um mesmo líder que é o maestro José Antonio Abreu, que inclusive já foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

Após quatro décadas com este foco ininterrupto na música, hoje a Venezuela colhe frutos.

Mas a Venezuela tem a vantagem de ser um país bem menor do que o Brasil…

Roberto Minczuk – Sim, o Brasil é grande demais, é um país não unificado, não tem uma política nacional para a música clássica. Temos vários projetos maravilhosos de música acontecendo no Brasil, mas não há realmente uma diretriz nacional, com o foco e a substância atingidos na Venezuela. Lembremos novamente que esse sistema venezuelano não alcançou sucesso da noite para o dia, são 40 anos.

O Brasil tem um potencial indiscutível e já desenvolveu-se muito na música clássica. Várias orquestras surgiram nos últimos dez anos, como a Filarmônica de Minas Gerais, que é uma das melhores do país, a própria Sinfônica Brasileira se desenvolveu muitíssimo como uma orquestra que conta com recursos da iniciativa privada e cujo orçamento aumentou em sete vezes na última década.

Projetos assim estão caminhando, se destacando fora do Brasil, mas ainda é pouco. O ideal seria termos uma orquestra sinfônica para cada um milhão de habitantes no Brasil.

E esta situação depende de uma diretriz política nacional?

Roberto Minczuk – Sim, depende de diretriz política, de condições viabilizadoras. O Ministério da Cultura precisa tornar a música cada vez mais viável, para que não tenhamos barreiras e sim condições facilitadoras.

Você acha equivocado dizer que música clássica é uma expressão elitizada, que não atinge a população em maior escala?

Roberto Minczuk – Sim, é totalmente equivocada esta afirmação. É um erro as pessoas dizerem que têm que entender de música para apreciá-la. No Rio de Janeiro, a Orquestra Sinfônica Brasileira integra o Projeto Aquário, em parceria com o jornal O Globo. É um projeto que existe há mais de 25 anos e que reúne multidões para ouvir música clássica.

Já fizemos concertos ao ar livre, em Copacabana, para 100 mil pessoas, que comparecem até embaixo de chuva. O público não é formado por experts apaixonados por música clássica. São pessoas comuns, que simplesmente apostam na música e vários são curiosos, que vão pela primeira vez e gostam. É um mito dizer que a música clássica é elitista. Basta apreciar, gostar, se envolver. Música é como comida, você precisa experimentar, gostar e ter acesso.

Voltando um pouco à sua história, que pode estimular outros: você teve um berço musical, seu pai foi maestro. No seu caso específico houve uma situação favorável ou você, assim como muitos jovens brasileiros que eventualmente não têm tanta condição, se dispôs a acreditar que podia desenvolver uma carreira?

Roberto Minczuk – Os jovens brasileiros, sem exceção, podem e devem acreditar no desenvolvimento de uma carreira musical. Eu tive a vantagem de começar a tocar em igreja evangélica, que é onde muitos músicos profissionais começaram porque elas oferecem aulas gratuitas de música e ainda acesso a um instrumento emprestado, além da possibilidade de apresentação para o público, mesmo que nos cultos. Isso estimulou gerações de músicos, inclusive a minha.

Em todas as orquestras profissionais brasileiras há músicos que vêm das igrejas evangélicas porque no ensino público são poucas as escolas que oferecem essa possibilidade de aulas de música, de ter acesso a um instrumento.

Onde um garoto vai aprender instrumentos como oboé, fagote, num colégio público brasileiro? No máximo vai aprender flauta doce. Então esta conjuntura depende fundamentalmente de projeto de governo. Mas, vale lembrar que hoje já há projetos de inclusão social e vários deles estão formando músicos no Brasil, como o Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia).

Recentemente contratei um contrabaixista para a OSB, que iniciou sua trajetória neste projeto, no interior da Bahia, e isto é maravilhoso.

Fico feliz em ver pessoas, mesmo de lugares remotos, que estão conseguindo, de alguma forma, realizar seus sonhos, o que confirma o imenso potencial do Brasil na área de música clássica.


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