Tango e samba têm afinidades? Sim, dizem a cantora brasileira Fabiana Cozza e o bandoneonista argentino Néstor Marconi, dois convidados muito especiais de um dos programas mais originais do festival Música em Trancoso 2015: o Tango meets Samba, que será apresentado pela  Orquestra Experimental de Repertório, sob regência de Carlos Moreno, no festival Música em Trancoso, no domingo (08/03/2015).

Considerada uma das mais importantes intérpretes da música brasileira contemporânea, Fabiana Cozza afirma: “Há um fio de dramaticidade no tango que, de certa forma, também encontramos no samba dolente”.

Néstor Marconi, um mestre do bandoneón, confirma: “Ritmicamente, são gêneros musicais diferentes. Mas a melancolia e a nostalgia do tango também existem nas letras e melodias do samba. Há toda uma cultura latina unindo samba e tango”.

Fabiana Cozza vislumbra a dimensão latina do programa

Vencedora do Prêmio da Música Brasileira 2012 como melhor cantora de samba, Fabiana Cozza acha que o programa Tango meets Samba tem como base dois gêneros identitários de duas culturas diferentes.

“É nesta experiência que podemos nos conhecer, nos emocionar, entendendo, inclusive, a dimensão do que é ser latino, para além de sermos brasileiros ou argentinos”, ela diz. “Acho que será uma grande celebração da música.”

Para Fabiana, falar de música brasileira significa pensar o homem negro em todo o seu contexto.

“Tive o privilégio de nascer em uma família em que o meu pai, em especial, me apresentou para o mundo do samba, dos mestres e bambas do gênero, quando eu ainda era criança. Com eles, aprendi música e muito sobre a vida. Em tantos outros ‘terreiros sagrados’ do Brasil, em que o tambor desenha e se estabelece como elo sagrado entre canto e música, canto e dança, me reconheço e levo este tesouro para as estradas que tenho trilhado”.

Fabiana diz que os momentos em que está no palco são os mais esperados por ela. “Pisar no palco é como uma partida de futebol arte para mim”, acrescenta. “No momento em que ‘a bola rola no gramado’ a verdade e a magia se estabelecem.”

No momento, além da apresentação no festival Música em Trancoso, Fabiana prepara, para maio deste ano, o show de lançamento de seu quinto CD. “É dirigido e produzido pelo grande violonista Swami Jr. e terá direção do magnífico ator e diretor Elias Andreato. “Em junho sigo para uma turnê na Europa, com shows na Alemanha, França e Holanda”.

É a primeira vez que Fabiana Cozza participa do Música em Trancoso e é grande a expectativa da artista. “Sei que a programação do festival privilegia grandes concertos da boa música, que a comunidade local é agraciada com oficinas de música e que o público é sempre muito receptivo”, ela comenta.

Néstor Marconi aponta riqueza melódica do samba e do tango

Um virtuoso do bandoneón, Néstor Marconi dirige atualmente a Orquestra de Tango da Cidade de Buenos Aires e também um quinteto musical. Presença constante em palcos internacionais, já compartilhou espetáculos com grandes nomes da música, como Astor Piazzolla, Yo-Yo Ma e Martha Argerich.  Ele já se apresentou no Brasil, mas a edição de 2015 do Música em Trancoso marca sua estreia no festival.

“Me parece um festival espetacular, num lugar maravilhoso”, ele diz, acrescentando que está com muita “gana” (vontade) de se apresentar no evento. “Estou muito ansioso, querendo que os dias passem rápido para chegar logo a Trancoso”.

Marconi conta que, certa vez, se apresentou no Rio de Janeiro em um encontro de tecladistas, que tocaram temas populares brasileiros e argentinos. “Tocou-se por exemplo Insensatez, de Tom Jobim, e um tango muito tradicional, como Los Mareados, de Juan Carlos Cobián. Foi um momento em que notei o quanto esses diferentes temas tinham a ver entre si, harmonica e melodicamente e sobretudo no conteúdo sentimental. É toda uma cultura latina aproximando esses gêneros musicais”.

Apaixonado pelo bandoneón, ele lembra que este instrumento “caiu em cima de suas pernas” quando tinha cerca de oito anos de idade. “Comecei a estudar música pelo piano, meu foco era Chopin, Beethoven, Mozart, não pensava em tango ou música popular, nem em nomes como Astor Piazzolla ou Aníbal Troilo.

Porém, ao descobrir o bandoneón, Marconi tornou-se um autodidata do instrumento. “Não nos separamos mais”, diz. “O tango pode ser tocado com qualquer instrumento. Contudo, tango e bandoneón são uma coisa só. Ele dá cor, acento ao tango, que evoluiu e se modernizou junto com o bandoneón”.

Sobre as músicas que serão apresentadas no programa Tango meets Samba, Marconi observa que haverá uma mistura de tangos tradicionais e modernos. Uma composição sua, Moda Tango, está incluída. Ele ressalta, no entanto, que é a interpretação que determina o que cada tango, de qualquer época, pode transmitir para o público.

Como música ou dança, Marconi ainda destaca que, hoje, uma nova geração está descobrindo e se interessando pelo tango na Argentina. “Para mim, o tango é um grande amor, do qual não posso me separar”, diz Marconi, salientando sua paixão por sua especialidade musical.

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