Música como evolução humana:  o recado final de Al Jarreau em sua última entrevista,  dirigida ao público brasileiro

 Por Ana Francisca Ponzio

No festival Música em Trancoso de 2017, Al Jarreau se apresentaria no dia 22 de março. Seria um espetáculo diferente de todos os que ele já apresentou no Brasil (o último foi em 2015, no Rock in Rio). No palco do Teatro L’Occitane, estaria acompanhado de sua banda e também da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, que estreará no festival. Para tanto, ele organizou um requintado programa sinfônico, que ao mesmo tempo proporcionaria uma ampla perspectiva de seu repertório e de seu estilo vocal único.

Nascido na cidade de Milwaukee, Estado de Winsconsin (EUA), Al Jarreau faleceu em Los Angeles, um mês antes de completar 77 anos, logo após uma súbita internação hospitalar, provocada por estafa.

Em sua carreira de mais de 50 anos, tornou-se um ícone mundial da música. Com sete prêmios Grammy na biografia, foi o único na história a conquistar esta premiação em três categorias – jazz, pop e R&B (rhythm and blues). Todos os instrumentos musicais pareciam estar contidos em sua voz, que conseguia mimetizar inclusive o som do berimbau e das baterias das escolas de samba.

Nesta entrevista com valor histórico e dirigida para o público brasileiro, ele fala sobre o espetáculo preparado para o festival Música em Trancoso, sobre a influência da música brasileira em seu estilo, sobre suas raízes musicais.

Acima de tudo, transmite seu generoso desejo de sintonia com a platéia e o significado humanista que concedia à música e à manifestação artística.

 Quais são suas expectativas com a apresentação no festival Música em Trancoso e com sua visita a esta região do sul da Bahia?

Al Jarreau – Estou muito feliz com a oportunidade de contribuir, através de minha música, com este maravilhoso festival. Para mim é importante atingir públicos de diferentes regiões, que estão além das grandes cidades e capitais, seja no Brasil, nos Estados Unidos, em qualquer parte do mundo.

No festival Música em Trancoso você apresentará clássicos de seu repertório e canções americanas. Outro diferencial da apresentação é que você cantará acompanhado da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, uma nova formação sinfônica no Brasil, que estreará no festival. Como será este programa e o que ele representa?

Al Jarreau – Este meu programa sinfônico é único e a apresentação em Trancoso será a primeira deste tipo no Brasil. Alguns anos atrás, quando escolhi as músicas para esta configuração, eu considerei muitos fatores antes da difícil decisão sobre quais composições incluir e o que deveria ser deixado de fora. Ao final, decidimos apresentar a seguinte coleção: destacar a sinfonia e sua riqueza sonora, combinar alguns de meus sucessos favoritos e apresentar uma variedade de estilos – pop, jazz, standards, somados a prazer e descontração. É o que será em Trancoso.

Algumas das fantásticas sinfonias incluídas nesta performance têm arranjos complicados se comparados a programas de artistas pop. Eu adoro isso porque desafia todos nós, cantor, banda e orquestra. Contribui para um concerto em que todos no palco se esforçam por uma conquista em conjunto.

Além da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, você cantará no Música em Trancoso em companhia de sua banda, cujos músicos fazem parte de um time de parceiros importantes de sua carreira, pontuada por nomes como o tecladista George Duke (1943-2013). Quem são os músicos que estarão com você no festival?

Al Jarreau – Sem dúvida, George Duke foi um parceiro muito importante. Ele podia tocar tudo! Mas há também Gil Goldstein, o arranjador de muitas das canções incluídas no programa sinfônico que apresentarei no Música em Trancoso. A banda que me acompanhará no festival inclui Larry Williams no piano, Chris Walker no baixo, e Mark Simmons na bateria. São músicos extremamente talentosos, parceiros de longa data, que percorrem o mundo comigo. Há ainda Larry Baird, meu maestro, um dos regentes “pops” mais capazes que conheço. Sou um felizardo por tê-lo no grupo.

Sabe-se que você tem um caso de amor com a música brasileira. Como esta relação começou e o que ela representa para você?

Al Jarreau – Eu mesmo afirmo isto em quase todos os concertos que realizo. Quando eu era muito jovem, eu e George Duke fomos apresentados à música brasileira e nós nos apaixonamos por ela imediatamente. Quando era criança eu gostava de tudo o que ouvia – da música de igreja ao doo wop (*) das esquinas das ruas, até as melodias de polcas que escapavam das tavernas próximas à minha casa. E muitos outros estilos também, os quais foram misturados para formar o “som Al Jarreau”. A música brasileira contribuiu profundamente para o meu estilo.

Quais os músicos brasileiros que mais lhe sensibilizam?

Al Jarreau – Antonio Carlos Jobim foi essencial para mim. Zé Ricardo, com quem cantei no Rio de Janeiro alguns anos atrás, é um dos músicos mais tocantes que conheço. Ele encarna tudo o que a música brasileira significa para mim, dá vida a estes significados. E não se trata somente de brasileiros. Também gosto de Chiara Civello, italiana que canta música brasileira como se fosse uma brasileira. E ainda Carol Welsman, uma cantora canadense de Toronto, que interpreta música brasileira lindamente.

Fale sobre suas raízes musicais. Seu talento se manifestou muito cedo, aos quatro anos de idade. O que significou o ambiente musical de sua infância, com presença forte do gospel?

Al Jarreau – Minhas raízes musicais são profundas porque a música esteve presente em minha vida desde o início. Minha mãe era pianista de igreja e eu sentava no banco ao lado dela, quando ela tocava. Meus irmãos são cantores. A música existia na vizinhança de minha casa, em todos os lugares. Não foi exatamente o fator gospel que me impressionou, mas a capacidade de regeneração e fortalecimento proporcionada pela música. Homens e mulheres que apreciam música, ou dedicam-se ou participam de qualquer forma de arte, podem se tornar mais capazes como pais, parceiros ou cidadãos. Crianças mais expostas à música tornam-se melhores estudantes e por tudo isso o contato com a arte é muito importante.

Você tem uma carreira de mais de cinco décadas. Como é lidar com este instrumento musical – a voz – ao longo do tempo?

Al Jarreau – A voz como instrumento traz grandes desafios. Um guitarrista ou um pianista podem adquirir um novo instrumento. Mas os cantores têm um único corpo, uma única voz. Seu som, com o tempo, pode ser afetado pelas mudanças corporais. Às vezes positivamente, mas em outras vezes é preciso muito trabalho para corrigir o som da voz no dia a dia. Porém, um cantor se favorece da linguagem. Podemos usar palavras para uma comunicação direta, algo que não é possível para um músico instrumentista.

Nos últimos tempos você tem publicado anotações de viagens, para expressar sua visão e seus sentimentos sobre os lugares onde se apresenta. Você acha que o Brasil, Trancoso em particular, serão suas próximas fontes de inspiração?

Al Jarreau – Os lugares me influenciam. Mas, o mais importante para mim são as pessoas. Se eu e os músicos de minha banda estamos unidos, isto é uma recompensa. E se tocamos e afetamos o público e isto nos é demonstrado, este é o elemento mais gratificante. Música é um meio de comunicar e compartilhar nossa humanidade. Em minhas anotações de viagens é possível perceber que minha conexão com as pessoas é o que há de mais significativo para mim.

(*) doo wop: estilo de música vocal baseado no rhythm and blues, que surgiu na década de 1940 em comunidades afro-americanas dos Estados Unidos.

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